Arquivo

2010 (4)
2009 (10)
| 1 of 17 |
vista da exposição

De 6 de Março a 24 de Abril

Otteveisktogen ou o Recanto dos Oito Caminhos

“Em Gribs-Skov há um local chamado Recanto dos Oitos Caminhos; só o encontra quem se dá ao trabalho de o procurar, pois que não vem indicado em nenhum mapa. De facto, o nome parece conter em si uma contradição, pois como poderia o encontro de oito caminhos constituir um recanto, como poderia conciliar-se o trajecto aberto e público com o sítio isolado e recolhido?”1

Na arte chinesa dos séculos XII e XIII é-nos fácil encontrar pintura de paisagem. Este tipo de abordagem, ao contrário da tradição ocidental, tem no percurso pela natureza, pelo campo, pelas montanhas, um dos seus principais mecanismos para a criação. O artista oriental transporta para as suas pinturas as sensações do que observou e, sem as regras rígidas da arte pictórica europeia, elabora composições através do que ficou desses passeios. Não tem qualquer interesse na cópia da natureza, desvalorizando o detalhe como truque visual. Assim como estes artistas, os passeios pelo campo e montanhas fazem parte do meu quotidiano. O prazer de observar sem qualquer necessidade de registar através de um qualquer suporte, fazem destas incursões, também, uma das ferramentas do meu labor criativo. 

Foi no Japão, nos séculos XVIII e XIX, que Hokusai e alguns contemporâneos, imbuídos da tradição chinesa, inovaram ao acrescentar cenas da vida quotidiana às suas pinturas. Hokusai representa o Monte Fuji como de uma obsessão se tratasse. A verdade é que o Monte aparece-nos, quase sempre, em último plano, sendo o “pano de fundo” de uma vasta série de gravuras. 

Também Cézanne, ao representar a Montanha Sainte-Victoire num conjunto de pinturas, busca uma simplicidade que chega a ser constrangedora, revelada através da obsessão pela montanha. Cézanne dizia que para fazer progressos (no seu trabalho como pintor) é necessário a observação e o trabalho a partir da natureza. É neste contexto que encontro uma afinidade com o meu trabalho mais recente. 

A obsessão pelo caminho é o pretexto visual que utilizo. A procura do essencial e a eliminação do supérfluo são matrizes para esta abordagem pictórica, recusando qualquer tipo de designação temática. Ou seja, a paisagem/natureza (culturalmente fazemos esta associação mesmo percebendo que são dois conceitos diferentes) revela-se como desculpa perfeita para dizer tudo e ao mesmo tempo não dizer nada. Neste exercício de repetição do motivo pictórico, é-me importante tratar do vazio que está relacionado com uma eventual percepção de que se trata apenas de paisagens.

“A produção de imagens, essa actividade intensa de ficção que habita em nós, e da qual não conhecemos nem o alcance nem a importância, depende, de facto, da magia – a realidade do mundo na qual acreditamos de modo tão forte só nos é perceptível através de uma cortina de imagens, ao ponte de – ao pretendermos abrir essa cortina – depararmos a maior parte das vezes com o vazio.”2

Esta utilização massiva de uma mesma imagem (entenda-se, neste contexto, a paisagem apenas como imagem) faz da sua banalização a sua maior virtude, isto é, conseguir ver mais para além do horizonte. Alcançar esta revelação, leva-nos a percorrer vários caminhos que são variados e diversificados, mas a tarefa revela-se tentadora e desafiante. A procura do nosso Recanto será somente um propósito e não um fim em si mesmo. 

 

Rui Algarvio, Dezembro de 2009

 

Kierkegaard, Soren, In Vino Veritas, Lisboa, Antígona, 2005, p. 26.

2 Cauquelin, Anne, A Invenção da Paisagem, Lisboa, Edições 70, 2008, p.81.

 

 

©2009 MCO | Arte Contemporânea / Todos os direitos reservados.